Poucos contos e alguns trocados.
Mostrando postagens com marcador terror. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador terror. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Além da Vingança

Aviso: esse é um conto de terror. Eu já tinha achado a história pesada quando pensei nela, e, depois que escrevi, percebi que ficou mais pesada ainda. Talvez eu tenha exagerado. Mas enfim. Tem mortes, aparecem pessoas mutiladas e outros horrores comuns em filmes de terror. Se resolver ler, não diga que eu não avisei.

Eu tive essa ideia dentro de outra ideia maior, que foi descartada por falta de talento pra escrever meu mesmo. A história era sobre uma menina que conseguia ressuscitar o Machado de Assis nos dias de hoje. Ela levava o escritor para assistir a um filme de terror, e a história do filme é a do conto ora apresentado. 

Eu não ia escrever, mas fui incentivada principalmente pela Thainá Hank, que insistiu para que eu a escrevesse. Comecei esse conto três vezes, e ainda não estou satisfeita com o começo.

Enfim. Classificação +16, com ressalvas. Acho que não tem nenhum palavrão.

Além da vingança


Não havia palavras para descrever aquela mulher. Os xingamentos habituais eram ineficazes. Talvez nunca se invente um palavrão capaz de descrever alguém que se compraz em provocar ódio e humilhação em subalternos do jeito que ela fazia.

Lucas, porém, fora o mais ofendido. Ela não se contentara em fazer comentários sarcásticos sobre o peso dele e sobre as suas notas então lhe aplicou um castigo com o fim de ridicularizá-lo. O pobre rapaz só faltou chorar, mas, graças a Deus, se conteve.

Queriam vingança. Processo seria muito pouco. Foi aí que Tainá, a mais corajosa – ou a mais louca – sugeriu pedirem ajuda do além. Invocar um espírito para assombrar a inimiga.

A juventude e a raiva fizeram-nos concordar. Desejaram o pior espírito que pudessem invocar. Cada um se concentrou nisso e deram as mãos para chamá-lo.Demorou alguns minutos – eles chegaram a pensar que não tinha dado certo, mas aí a lâmpada começou a piscar e a porta bateu três vezes. 

Quando a luz apagou sozinha, Tainá gritou “está aí?” e o copo, sozinho, como por mágica, voou na direção do “sim”.

Apertaram mais as mãos.

-Queremos que nos ajude em nossa vingança!

Enquanto o copo se movia, houve um silêncio em que podiam ouvir seus corações batendo em uníssono. O espírito pediu, por fim, apenas o nome completo da nossa inimiga. Forneceram, tremendo.

Passou um vento gelado por eles e a luz voltou a acender, como que por milagre.

Nenhum deles voltou a falar do ocorrido naquela noite, nem no fim de semana que se seguiu. Na 
segunda-feira, porém, todos foram conferir se a professora estava dando aula. E, para o alívio deles, estava.

-Essa história de fantasma é balela – começou Leonardo, após a verem.

-Na hora, tu tava com medo.

-Eu fiquei, digamos, surpreso, com aquele copo se mexendo sozinho.

-Por falar em copo se mexendo sozinho, como isso foi acontecer, se não existe fantasma? – questionou Tainá, causando um arrepio em todos. Fizeram um silêncio de medo, que foi quebrado por Leonardo:

-Galera, não aconteceu nada com ela! Se era mesmo um espírito, tava zoando a gente.

À noite, Lucas encaminhava-se para casa, a pé, como de costume. Ele passava por uns becos meio desertos – já tivera medo  daquele caminho, mas não tinha mais. Naquele dia, porém, estava sobressaltado. O coração batia irregularmente e ele olhava em redor com frequência. Parecia que algo o espreitava. Andou mais rápido. Calma, Lucas, dizia para si, mas não conseguiu evitar o medo.

Deteve-se quando viu um carro parado na esquina. Começou a andar devagar, cuidando para seus passos não fazerem barulho na rua silenciosa. Quando passou pelo automóvel, lançou um olhar para dentro e não pôde segurar o grito.

No banco do motorista, estava uma mulher debruçada sobre o volante. Sua cabeça fora cortada mas ainda estava sobre os ombros, virada em 180º, com os olhos abertos e uma expressão de medonho pavor na face.

Havia sangue respingado pelos bancos, painel e até nos vidros, e, no para-brisa se lia “feito” em letras maiúsculas. O braço direito fora arrancado e o dedo indicador estava um pouco abaixo da letra “O”, como se ela mesma tivesse escrito isso com o próprio sangue.

Lucas, pálido, reconheceu a mulher do carro: era a sua professora. Aterrorizado, correu para casa, onde passou a noite em claro, febril e vomitando água. No dia seguinte, não foi à aula, mas seus amigos souberam do ocorrido pelo jornal e isso era assunto no colégio todo.

-x-x-x-x-

A professora tinha um único filho, Jorge, que, é claro, ficou muito chocado com a horrível morte da mãe.

O rapaz estudava em um colégio particular, onde era muito detestado, por ser irritante e mimado. Apesar disso, tinha alguns puxa-sacos que o seguiam aonde quer que ele fosse.

No fim, ele desejou se vingar do que fizeram à sua mãe. Chamou esses puxa-sacos e organizou um jogo do copo. Sequer sentiu medo, enquanto seus colegas tremiam:

-Quero vingança – bradou para o espírito. – Quero que esses malditos sofram como eu sofri. Mate as mães deles, na frente deles.

A assombração não respondeu e  sumiu, causando um vento gélido nos participantes da mesa.

-x-x-x-x-x

Na quinta-feira à noite, Helena estava no computador finalizando um trabalho quando a luz começou a oscilar. Quando o relógio bateu  meia-noite, o computador apagou de repente. Ela xingou um palavrão. Tentou reiniciar o aparelho, pressionando o botão start, mas não obteve sucesso. Tirou da tomada e contou até cinco. Foi então que abriu uma tela cinza chumbo. Começou a piscar o iconezinho de texto, como se fosse para ela escrever.

Assustada, a menina pressionou a tecla de espaço.

E começaram a surgir letras maiúsculas verdes neon, como nos computadores antigos. As letras formaram a palavra “vingança”. A garota conseguiu tirar uma foto com o celular, antes de a tela apagar, junto com todas as luzes acesas.

Apavorada, foi tropeçando até a cozinha, em busca de uma vela. Quando encontrou, suas mãos tremiam tanto que ela não conseguiu acender o isqueiro. Nem teve tempo. Foi agarrada pelo pescoço por duas mãos invisíveis. Debateu-se, mas não conseguiu se soltar. Procurou com as mãos  alguma parte vulnerável do corpo do agressor, mas não encontrou nada: ele era apenas as mãos.

Aterrorizada, ela levou as mãos ao pescoço, para tentar soltar as que lhe sufocavam, mas não conseguiu achar nada. O ar já lhe faltava quando sentiu uma voz preenchendo o ambiente:
“Não os deixarei em paz até que paguem até o último centavo”

Ela abriu bem a boca: queria gritar, precisava respirar. Debateu-se de novo. E aí foi arrastada até o quarto de seus pais, derrubando móveis, enfeites, quadros e tudo que se encontrava pelo caminho. Lá, eles dormiam placidamente. O fantasma prendeu Helena à parede com algemas invisíveis  enquanto puxava o corpo adormecido da mãe pela cabeça. Fez ele dançar pelo quarto, enquanto a menina chorava de pavor, sufocada ainda, embora já conseguisse sorver um pouco de ar. Ela gemia baixinho “pai, acorda, pai, socorro”, pois não conseguia gritar.

No dia seguinte, a polícia foi chamada pelo pai de Helena, que encontrara a esposa morta ao seu lado, com a cabeça virada em 180º e sem o braço direito, encontrado apertando o pescoço da filha desmaiada. Havia sangue por todo o aposento, e, escrito na parede, ao lado de uma foto da família, “vingança”.

A casa estava um verdadeiro caos, como se tivesse sido varrida por um furacão.

No celular da menina, foi encontrada a foto que ela tirara do monitor, em que parte da mensagem aparecia ao lado de um vulto azul brilhante.

Os amigos foram visitá-la no hospital, mas ela não conseguia falar, pois estava ainda em estado de choque.

-x-x-x-x-x

Na noite seguinte, Lucas pediu para dormir com a mãe. Ela achou graça de ouvir um pedido desses de um rapaz daquela idade, mas  lembrou-se do trauma que ele passara e concordou.

A mulher logo adormeceu, mas seu filho não fechou os olhos por um bom tempo. A cada barulhinho ele sobressaltava e levava a mão ao crucifixo do pescoço.

À meia-noite, ele cochilava um pouquinho quando acordou de repente, assustado. Seu corpo se movia sozinho. A mãe dormia inocentemente e Lucas foi obrigado a ver suas próprias mãos arrancarem o braço direito dela, com uma força que ele nunca teve. Ela acordou com a dor absurda e viu o filho com os olhos apavorados e o seu braço apertado entre os dedos.

-Lucas, o que você está fazendo, Lucas, pelo amor de Deus

Ele deu um tapa nela com a mão dela própria, com tanta força que a mãe foi jogada no chão.

-Lucas, olha pra mim, eu sou tua mãe, nunca te quis mal, eu te amo Lucas

Ele era obrigado a ver quem mais amava ajoelhada implorando pela vida, e ele próprio era o algoz. Aproximou-se dela e agarrou-lhe o pescoço, ela começou a se debater:

-Para, Lucas, pelo amor de Deus, quer matar a tua mãe

Conseguiu soltar, a mãe o empurrou, saiu correndo em direção da porta, gritando por socorro. Ele foi atrás, a mente lutando contra o corpo, sem sucesso. Nem falar ele conseguia. Alcançou-a antes de chegarem à sala, agarrou-lhe novamente o pescoço, asfixiando-a com os dedos, com uma força que não pertencia ao miúdo Lucas.  A mãe, desesperada, catou um vaso com o braço que lhe sobrara e o quebrou na cabeça do filho, abrindo um corte na testa. O pequeno Lucas desmaiaria com aquilo, mas agora ele estava possuído pelo diabo. Não desmaiou mas soltou a mãe, ela correu pra cozinha, atrás da chave do apartamento, foi perseguida e encurralada. Dessa vez, em lugar de asfixia, que demorava muito, Lucas torceu o pescoço dela, fazendo a cabeça fazer um ângulo de 180º.

Quando os vizinhos, alarmados com os gritos de socorro, arrombaram a porta, encontraram a mulher morta na cozinha, a casa cheia de sangue, que também fora usado para escrever “vingança” no janelão da sala e Lucas enforcado no lustre.

-x-x-x-

Leonardo, apavorado com os acontecimentos, comprou sal grosso no atacado e despejou nas soleiras das portas e janelas da casa, rezando padres-nossos, aves-marias e credos enquanto o fazia. Pendurou um crucifixo na porta de entrada e outro na porta do quarto dos avós, pois morava com eles. Também aspergiu água benta por toda a casa e fez um círculo de sal no meio do tapete da sala, onde pretendia ficar jogando vídeo-game para não dormir.

Perto da meia-noite, seu telefone tocou. Ele foi até o quarto buscar o aparelho, e o atendeu por lá. Era Tainá, preocupada:

-Por enquanto, aqui tá de boas – disse ele.

-Aqui também, mas estou morta de sono.

-Aguenta firme, guria. Sal grosso é infalível.

-Tu foi visitar a Helena?

-Sim. Ela tava na mesma, coitada.

-Contou pra ela do Lucas?

-Não. Achei que ia ser pior pra ela.

Conversaram por alguns minutos. Após desligarem, Leonardo voltou a seu posto na sala, e encontrou a avó varrendo o sal.

-Que bagunça é essa, Leonardo?

-Vó! O que a senhora tá fazendo?

-Limpando essa bagunça, claro. Por que tu fez isso?

-Vó, é quase meia-noite, a senhora tinha que estar dormindo!

-Com essa bagunça?

Ele suspirou. A pobre senhora tinha mania de limpeza, mas precisava impedi-la.

-Vamos fazer o seguinte: a senhora vai dormir e eu limpo tudo.

Ela ergueu a sobrancelha, desconfiada:

-Limpa mesmo?

-Sim, vó. Agora é melhor a senhora descansar.

A velhinha se deu por vencida e foi para a cama. Leonardo ajeitou como pôde o círculo de sal e voltou ao vídeo-game.

À meia-noite em ponto, sua avó voltou à sala.

-Eu já vou limpar, vó, relaxa.

A voz que respondeu não era dela. Era uma voz rouca e gutural, que sibilou:

- Vin-gan-ça

Leo ergueu os olhos, desgrudando-os da tela:

-Vó?!

A cabeça dela já estava virada em 180º:

-Vin-gan-ça

- VÔ, SOCORRO! – gritou o rapaz, encolhendo-se no círculo de sal. Ele sabia que não podia sair dali, a menos que quisesse morrer enforcado, como o Lucas. Talvez nem fosse uma boa ideia chamar o avô.

O corpo da avó, repetindo “vingança” mecanicamente, começou a destruir o que encontrava pela frente,  e a se mutilar, escrevendo vingança pelas paredes com sangue, com uma letra cada vez pior,  até que a palavra se tornou apenas garranchos ininteligíveis.

Leonardo, horrorizado, achou que aquilo estava indo longe demais. Começou a jogar coisas nela, que ignorou sumariamente. Então, ele resolveu jogar algo mais pesado: a TV. Levantou-se para pegá-la, mas, assim que pôs o pé para fora do círculo, a avó virou a cabeça em 180º de novo e avançou na direção dele, puxando-o definitivamente para longe do sal.

Ele chegou a principiar a palavra “socorro”, mas não conseguiu concluí-la. Seu pescoço foi torcido, e a cabeça, virada para trás.

O avô, de manhã, infartou ao ver a esposa e o neto com as cabeças invertidas e os braços direitos arrancados e a sala toda suja de sangue, com milhares de vinganças espalhadas pela parede.

 -x-x-x-x-

Tainá soube do ocorrido pelo jornal da manhã. O avô sobrevivera, mas ainda estava internado na UTI.

A casa da menina estava igual à do amigo, muito embora ela tivesse discutido com o pai e a madrasta por causa disso. Ela acabou lhes contando a verdade, mas eles não acreditaram, é claro, e brigaram com ela.

Tainá armou-se como pôde, e passou mais uma noite a esperar o fim da vingança.

Ela não ia se dar por vencida. Jamais.


domingo, 19 de abril de 2015

O Preço da Eternidade


Imagem catada na internet

Eae, gente! Eu finalmente consegui digitar esse conto! Já faz um bom tempo que o escrevi, usando dois assuntos sobre os quais eu sempre quis discorrer: a maldição pelo assassinato de um unicórnio e um conto de terror. Não sei se ficou terrorífico que chega, mas pelo menos fala da maldição. 

E, de quebra, já cumpri uma das metas para Abril, digitando o bendito.
Enfim. Ei-lo.

O preço da eternidade


Matar unicórnios dá azar. Mais do que azar, matar um unicórnio é sinal de uma desgraça medonha e iminente. Qualquer um sabe disso.

Mas o que muitos não sabem é que essa história serve para encobrir uma verdade terrível: há um ritual feito com sangue de unicórnio que dá a quem o fizer a imortalidade – e plena saúde - por toda a eternidade. Mas há um preço por tudo isso, é claro. Durante esse ritual, a pessoa perde o poder sobre a própria alma.

É uma história terrível, e poucos malucos arriscar-se-iam para confirmar que fosse verdadeira. Na verdade, os bardos não costumam contá-la justamente para evitar que esses mesmos malucos se atrevam. Imaginem os perigos que podem advir de um ser imortal sem alma zanzando pelo mundo.
Portanto, eu não ouvi essa história de um bardo. Ouvi-a há anos, de uma bruxa, provavelmente a pessoa que conheci mais próxima dos tais “malucos”.

Nunca contei a ninguém, mas agora recordo a velha história. Seria uma tentação? Lanço um olhar à minha esposa, deitada na cama, derretendo-se em febre. Ela, inconsciente, aperta minha mão e delira e geme. Seu ventre inchado realça mais ainda sua magreza mortal. As últimas palavras que ela disse antes de perder a consciência, há dois dias, ainda ecoam na minha mente: se for preciso escolher entre mim e o bebê, escolham o bebê. O médico esteve aqui e disse que, provavelmente, não haverá escolha possível.

Lembro-me da bruxa “vida e saúde eternas...”

Aperto a mão de minha mulher. Dedos finos, longos, pálidos, sem esperança, sem vida. Preciso deles. Deles cheios de força novamente, acariciando meus cabelos, de poder beijá-los outra vez. 

Só dependia de mim.  De que me valeriam a alma imortal e o paraíso celeste sem tudo o que me importava?

Decidi, enfim. Deixei-a aos cuidados de meus sogros e prometi regressar com a cura. Minha sogra chorava. Seu marido bateu nas minhas costas e me pediu para voltar logo. 

Meu coração ficou mas eu parti em busca do sangue do unicórnio que permitiria aos três sermos felizes para sempre.

-x-x-x-

Por três dias vaguei, até entrar em uma floresta estranha. Era ela, a floresta em que encontrei o unicórnio, depois de uma semana. Ele estava lá, exatamente como eu o imaginara. Um belíssimo e esguio cavalo branco, com um gigantesco e pontudo chifre na testa.

Enfim, a criatura! A criatura do sangue de prata, da minha salvação e de todos que amo.

O ritual era simples. Bastava fazer um corte vertical no pescoço dele e colher o sangue, que finalmente nos daria a vida eterna. Rápido, antes que a criatura escape.

Mas os meus membros estavam pesados, como acorrentados. Eu não podia dar sequer um passo. E o bicho impávido diante de mim, como uma tentação. Uma tentação à qual eu tinha preguiça de ceder. Não que não quisesse, eu a desejava como um pecador à salvação, mas meus desejos estavam adormecidos, eram apenas uma lembrança.

Quando enfim esbocei reação, uma voz desconhecida invadiu minha mente. Seria o unicórnio? Ele não falava. Talvez um poder místico, minha consciência ou até o próprio Deus.

“Vais matar uma criatura inocente para satisfazer teu desejo?... Olha pra ele, nunca te fez mal...”

Não consegui replicar. Meus dedos estavam amolecidos. A voz continuou:

“E tua alma imortal? Inocente como esta criatura... Vais sacrificá-la também?”

A minha alma estava em um catre, em casa, repleta de nosso filho. Eles eram minha alma, e mais nada, nem Deus, importava. Eu já havia sacrificado a vida celeste, mesmo antes de ameaçar o unicórnio. Não retruquei, porém. Fixei o olhar na criatura inocente diante de mim – tão inocente que seu único pecado fora ter algo que eu desejava. Pecado, porém, suficiente para ser condenado.

Mantive a ideia de rasgar o pescoço do bicho mas, imóvel pela minha própria incapacidade, esperei a grave voz misteriosa tornar a me admoestar.

Mas não. Deus – se é que era realmente Ele – cansara-Se de mim. Qualquer coisa seria inútil.

Pensei no meu inocente filho, que ainda nem nascera, e quase recuei ante a ideia de que seu primeiro alimento seria o sangue da criatura sagrada. A visão me aterrorizou, os pequenos lábios manchados de rubro puro, o choro de fome, o leite pálido que ele sorveria em seguida, de meu anjo de alma já corrompida. Os olhos dela deixariam o bebê para olhar para mim, e seus lábios sujos de sangue sorririam, livres e salvos, enfim.

Tive um novo sobressalto, lembrando dos longos dias de doença dela, do sangue e da febre, do ventre crescendo e os ossos surgindo sob a pele magra. Ela iria morrer.

Meus dedos me obedeceram, enfim. Tomei o punhal da bainha e avancei no bicho, com violência, fúria, sede. Talvez ódio, como se meu anjo estivesse naquele estado por causa de uma maldita criatura mágica.

E nem a voz de Deus na minha cabeça “tolo imbecil!” me deteve.

Cravei o punhal logo abaixo da mandíbula do bicho e deslizei em direção do ombro, num golpe só. Prata líquida esguichou e escorreu pela minha mão, enquanto o unicórnio me lançava um último olhar humano e a voz desfalecia em minha mente.

Sorri insano. Finalmente. Minha doce esposa e meu filho viveriam para sempre, abençoados pela maldição do unicórnio.

Provei do sangue, após recolhê-lo num odre, e não senti absolutamente nada de diferente. Bebi alguns goles e uma leve tontura se apossou de mim, mas logo eu não tinha mais nada. A imortalidade era só isso? Com o mesmo punhal, fiz um corte comprido em meu pulso. Esfreguei o sangue prateado ali. 

Quase imediatamente, ele fechou por definitivo, restando apenas um fio metálico ali, a prova da marca.

Disfarcei o odre em minha bagagem e me preparava para partir, quando senti uma forte ânsia de vômito. Caí de joelhos, havia algo preso em minha garganta, que meu corpo fazia questão de expelir. Talvez o sangue. Mas era pastoso e me impedia de respirar.

Quando enfim consegui vomitar, escorreu de minha boca um enorme fio pastoso, que não terminava. 

Fiquei ali, sofrendo, até conseguir pôr tudo pra fora, transbordou pelos meus olhos, abriram-me cicatrizes antigas, que passaram a sangrar prata, e até a mais recente, e eu não sabia o que fazer, estava me desfazendo em mercúrio, ali mesmo, diante do corpo do unicórnio que se decompunha aos poucos. 

Se houvesse alguém naquela floresta, fugiria aterrorizado de meus gritos guturais de sofrimento atroz, mas não, eu estava completamente só, como vim ao mundo, e era assim mesmo que o ia deixar. Meu único consolo era que morreria ao mesmo tempo em que ela o faria, minha doce esposa. 




Não soube quanto tempo passou, até que acordei completamente recuperado. Não havia cadáver nenhum diante de mim, nem sangue argênteo, só meu odre profano. Suspirei, tomando forças pra me levantar, o que, para minha surpresa, foi incrivelmente fácil. Senti-me leve, como há anos não me sentia. Como se houvesse nascido de novo. 

Meu coração exultou de felicidade. Parti o mais rápido possível, encontrando meu cavalo onde o havia deixado. Minha mente só tinha espaço para a visão da minha esposa saudável, exatamente no dia em que nos conhecemos, uma festa da aldeia, todos ao redor do fogo, ela dançando, os olhos castanhos brilhando, os cabelos trançados até a cintura, a boca de pêssego maduro, as ancas largas, o corpo macio.

Ela sorrira pra mim e eu decidira fazê-la a mulher da minha vida. Para sempre. 

Nosso bebê surgiu depois em meus pensamentos, pequeno e gorducho, os olhos da mãe. Não consegui saber o sexo, mas ele roía a própria mão, travesso. Havia leves cachinhos muito claros no topo de sua cabecinha afável.

Minha amada, com ele no colo, sorria e lhe dizia “dá tchau pro papai, dá”.

Parei, fulminado por um raio. Ele tinha olhos de prata!

Não consegui reagir por horas. Meu cavalo me carregou, paciente, até a casa que sabia ser nossa. Durante esse tempo,não me abandonou a visão de minha mulher com nosso filhinho no colo, ensinando-o a dar tchau para o papai.

Quando enfim voltei a mim, esporeei o cavalo e parti a toda velocidade, disposto a chegar o quanto antes.

No amanhecer do quarto dia alcancei o lar e a primeira pessoa que vi foi meu sogro cultivando algumas flores que sua filha diligente havia plantado embaixo de nossa janelinha.

Gritei o nome dele, que apenas ergueu os olhos, sem dar muita atenção. Apenas abandonou o ofício quando desci do cavalo e fui até ele.

-Como ela está? – interroguei, ansioso.

-Lá dentro, descansando – respondeu misterioso.

Meu coração disparou. Então ela estava melhor? Entrei quase correndo na casa. No nosso quarto, a maior de todas as surpresas: minha amada estava deitada e, sobre ela, um lençol encharcado de sangue. Havia sangue no chão, nas paredes, como se algum animal monstruoso tivesse destroçado algo ali.

Não pude me mover. Meu sogro adentrou o quarto em seguida: não disse que ela agora descansa? Descansa para sempre.

Nosso bebê morto jazia nos braços esqueléticos da mãe.

Minha voz estava amortecida, mas eu não consegui chorar. Nunca mais pude chorar, depois do ritual.

-Quando...? – não sei de onde tirei forças para perguntar.

O velho beijou a testa da filha, olhou demoradamente o neto e, enfim, respondeu:

-Há três dias, quando o bebê nasceu.

Exatamente quando eu os vira dar tchau para mim!

Aquilo não podia estar acontecendo. Não... Podia...

O avô se aproximou de mim de cabeça baixa:

-Ela era linda. A mais bela das moças da aldeia. De coração mais puro. E você... Você a enfeitiçou! Você a matou! Maldito!

E o velho atravessou meu peito com uma velha espada de família. Eu precisava mesmo morrer.

Mas não senti quase dor. Eu não iria morrer. Nunca mais.

Ele se apavorou brevemente, mas depois deu um sorriso cheio de sarcasmo:

-Você não vai poder se juntar a ela... Jamais.

E tirou a própria vida, diante de meus imortais olhos de prata.  

 -x-x-x-x-x-x-x-

Vale um comentário?